quinta-feira, novembro 17, 2016

TODAS AS VIDAS


Vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado, acocorada ao pé do borralho, olhando pra o fogo.

Benze quebranto.

Bota feitiço...
  
Vive dentro de mim a lavadeira do Rio Vermelho,

Seu cheiro gostoso d’água e sabão.

Rodilha de pano.

Trouxa de roupa, pedra de anil.

Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim a mulher cozinheira.

Pimenta e cebola.

Quitute bem feito.

Panela de barro.

Taipa de lenha.

Cozinha antiga toda pretinha.

Bem cacheada de picumã.

Pedra pontuda.

Cumbuco de coco.

Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim a mulher do povo.

Bem proletária.

Bem linguaruda, desabusada, sem preconceitos, de casca-grossa, de chinelinha, e filharada.

Vive dentro de mim a mulher roceira.

– Enxerto da terra, meio casmurra.

Trabalhadeira.

Madrugadeira.

Analfabeta.

De pé no chão.

Bem parideira.

Bem criadeira.

Seus doze filhos.

Seus vinte netos.

Vive dentro de mim a mulher da vida.

Minha irmãzinha... tão desprezada, tão murmurada...

Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:

Na minha vida – a vida mera das obscuras.

Cora Coralina
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