terça-feira, novembro 15, 2016

SÉRIAS BOBAGENS


Eu já percebi que posso enlouquecer por nada.

Não são os grandes eventos que me tiram do sério, mas as cenas minúsculas e inofensivas.

Eu grito sempre quando faço algo apressado e arco com o dobro do trabalho esperado.

A irritação é obra da onipotência fracassada.

Esperava levar alguns minutos, me atrapalhei e o atalho custou o caminho inteiro.

A raiva emerge de verdadeiras bobagens.

É abotoar uma camisa e ver que os botões estão errados ao fechar o último buraco.

Minha vontade é derrubar o armário e preparar uma fogueira com os cabides.

Eu me sinto ridículo repetindo as tarefas.

Não tenho paciência de caligrafia, de letra bonita.

É quando o zíper da mala emperra no momento em que chega o táxi.

Mas não emperra simplesmente.

O zíper passou por cima de parte da sua camisa de seda.

Você fica em dúvida entre voltar o trilho e avançar.

O tecido está no meio do zíper, sanfonado, ocupando o lado direito e esquerdo dos pequenos dentes.

Recuar significa rasgar a peça, avançar também significa mutilar a peça.

Ou seja, o interfone toca, você está atrasado, a roupa grita de dor e a mala não fecha.

Daí a loucura assume a minha personalidade.

Não queira telefonar para mim nesta hora.

Outra motivação de minha insanidade é aparar a barba.

Por que existem pessoas más avisando que a barba está desparelha?

Deixe a barba alheia torta, que cada um cuide de sua barba.

Invento de corrigir o desnível em rápido intervalo comercial.

O problema é que me distraio e crio um descampado, um terreno baldio, uma grosseira falha.

Sou obrigado a tirar a barba inteira em função de uma pequenina dissimetria.

Óbvio que o retoque desembocará em epopeia.

O uso equivocado do aparelho por segundos gerará agora o longo tratamento de espuma, água quente e gilete.

Irei certamente me atrasar, o banheiro ficará coalhado de pelos e exigirá vários dias de faxina.

Sem falar quando adiamos alguma conta para a última hora do último dia do pagamento.

Não me preocupo porque a operação online depende de pouquíssimos cliques.

Só que tento uma vez e estou sem internet.

Só que tento duas vezes e o sistema do banco caiu.

Enfrentarei uma fila em minha alma, cheio de fantasmas e temores, dobrando a esquina do meu passado.

Com o difícil, eu me esforço.

Diante do fácil, eu me atrapalho.

Carpinejar

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