terça-feira, maio 12, 2015

Nem todas as mães são santas. Ou felizes

No Brasil, de cada 10 agressões a idosos, seis são praticadas por filhos. O DF é campeão nessa modalidade. Dados do Mapa da Violência nacional, com base em números de 2013.

A cada ano, mundo afora, muitas centenas de mulheres são espancadas, violentadas física e mentalmente, mutiladas, assassinadas. Algumas pelos filhos.

Há centenas de mães abandonadas por filhos em asilos e abrigos para velhos e doentes. Filhos que geraram, gestaram, criaram e amaram.

Muitas mães abandonam filhos recém-nascidos, até em lixeiras. Outras tantas espancam e matam filhos. Outras ainda rejeitam filhos vida afora. E vice-versa.

Centenas de mães choram filhos assassinados – a maioria pobres, negros, moradores de favelas, agora rebatizadas de comunidades.

Coração de mãe também dá defeito. De filhos idem.

Todo ano, no dia das mães – segundo domingo de maio –, milhares de mães recebem presentes, homenagens e juras de amor incondicional. São santificadas. Agora, também e principalmente na superexposição das rede sociais.

O mundo ideal é muito mais ideal no Facebook. E nas datas marcadas.

Em vésperas do santificado dia das mães, o deputado federal mais votado do DF, Fraga, dono de quatro mandatos, disse: “Ninguém vai calar a minha boca com besteirinha de feminismo, não.”.

Explicava sua performance em sessão da Câmara Federal, quando defendeu:” Mulher que bate como homem tem que apanhar igual homem.” Seja ou não mãe.

Na ocasião da primeira frase, da qual garante não se arrepender, defendia a atitude do colega, Roberto Freire, que numa discussão acalorada, para conter um dedo em riste, segurou firme a mão de outra colega parlamentar, Jandira Feghalli.

Freire pediu desculpas da tribuna. Fraga, o comandante-em-chefe da bancada da bala, só mandou bala. Não pedirá desculpas a Jandira. E metralha. ”Se eu tivesse que fazer, faria tudo de novo, sem nenhum problema.”

No quadrado do Fraga tem vaga cativa o colega mais famoso, deputado Bolsonaro, que, com igual pontaria, disparou sobre a ex-ministra Maria do Rosário: nem “merecia ser estuprada porque é muito feia”.

Ser estuprada exige inclusive merecimento. Seja mãe ou não. Só tem que ser mulher...

Não será uma “besteirinha de feminismo” que vai segurar descalibrados calibres daquelas excelências. Todos filhos de mães. E elas não têm culpa.

A felicidade das mães é mito mesmo. Nem todas são felizes, nem todas são respeitadas, nem todas são tão santas, nem amadas tanto quanto o exibido nas redes sociais.

Todas viveram a magia de gerar, gestar e parir. O corpo, que era só de um, comportou outro que ganhou vida própria. Mas isso não nos faz santas. Nem garante amor incondicionalmente, bondade e generosidade obrigatórias.

Obrigatório mesmo é que ser mãe é condição definitiva. Não dá para dizer: “Desculpe, foi engano”. Fez ta feito. Não tem troca. (Quando muito, uma substituição). Independente da qualidade de umas e de outros, ou do caminho tomado, será mãe daquele (s) filho (s) para sempre. E vice-versa.

Para o bem e para o mal, algumas mães não merecem os filhos que têm. Há filhos que não merecem as mães que lhe couberam – para o bem e para o mal.

Mães e filhos podem vir com defeitos, descalibrados.

Padecer no paraíso é só retórica. Padecimento é uma coisa, paraíso é outra muito diferente. Melhor, mais calmo e mais santo. Sem defeitos.

Dizem.


Tânia Fusco Tânia Fusco
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