segunda-feira, setembro 29, 2014

Quando a mulher não esquece e não perdoa


Uma mulher magoada e traída vive reencarnando a mesma queixa.

Em todo encontro.

Ela pode amá-lo, mas nunca esquece seu erro.

Em todo encontro.

Ela volta ao assunto, retoma o conflito, não termina de sofrer e de acusá-lo.

Xinga, grita, desafora.

Em todo encontro.

Você já pediu desculpa, disse que não faria mais, reconheceu o tamanho de sua falha, mas ela não diminui seu tormento, não alivia seu castigo, não abranda sua pena.

A impressão é que pretende castigá-lo retornando ao tema dolorido, à quebra da lealdade, à infidelidade inadmissível.

Não suporta que ela toque de novo na ferida, pois passaram meses desde a ocorrência.

Quer apenas um dia feliz, sem cobrança; um dia esquecido, sem sangrar.

Eu entendo o tumulto do coração feminino.

Ela não conseguiu dizer tudo o que queria, por isso vive se repetindo.

Você nunca deixou que ela falasse até o fim.

Até o fundo do ódio.

Até a raiz da indignação.

Até a medula do desespero.

Até a exaustão da voz.

Em todo encontro, quando ela começa a chorar e se desesperar, interrompe o discurso.

Por medo de ouvir o que ela tem a dizer ou por imaginar o que será dito.

A questão é que ela jamais avançou além do início de sua angústia, do que elaborou em segredo.

Como não aguenta ter provocado tanto sofrimento, não permite que ela encerre a conversa.

É um ano inteiro que ela procura libertar sua dor e você continua adiando o exorcismo.

Sempre abafa as conclusões, sempre atalha com brincadeiras, sempre abraça e pede controle, sempre exige que ela não fique remoendo a desgraça, sempre se explica e se justifica, sempre cria atenuantes.

O que não percebeu é que ela não volta ao passado porque simplesmente não saiu dele.

Seu perdão não apaga o direito de esclarecer o que aconteceu.

Seu perdão não elimina a liberdade de desabafar.

Para o homem, o perdão é uma pedra definitiva sobre o assunto.

Para a mulher, o perdão apenas pode ser dado depois que ela falar tudo.

Precisa do heroísmo para permanecer quieto até o fim.

Pode levar horas ouvindo, atravessar mudo uma madrugada inteira.

Só o silêncio, a humildade do silêncio, devolverá a certeza da compreensão.

A compreensão é o recomeço do amor.

Fabrício Carpinejar
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