quinta-feira, maio 08, 2014

Sem maquiagem


Acompanho de longe, mas com interesse, essa onda de mulheres sem maquiagem. Acho bonitas as fotos de artistas famosas de cara lavada que estão aparecendo na imprensa. Há uma simbologia de pureza no gesto de limpar o rosto. É como tirar a máscara, tirar a roupa, mostrar-se de verdade. A postura me agrada, como me agradam as mulheres que não alisam os cabelos ou não se depilam de forma exagerada. Nesse mundinho tomado por plásticas, escovas progressivas e blogueiras de moda, há um quê de rebeldia nessa atitude, uma espécie de basta às múltiplas exigências sobre a aparência feminina.

Pondo de lado a sociologia, acho que a ausência de maquiagem produz uma forma de beleza mais interessante.

Uma mulher de rosto limpo transmite autenticidade e segurança. Despojamento também, que é o contrário da afetação. Pensem na foto de Sabrina Sato de cabelos soltos e sem rímel feita pela revista Glamour. Parece que ela acabou de acordar ao seu lado. Ficou mais madura, mais forte, mais íntima até. Para o meu gosto, mais atraente. Outras mulheres talvez não fiquem tão bem na foto sem pintura e sem retoque, mas quem realmente se importa? São apenas imagens na tela do computador. Na vida real, as pessoas interagem frente a frente, ao vivo. Nesse caso, a maquiagem faz menos diferença e a personalidade conta mais.

Por causa dessa discussão, fui forçado a pensar nas mulheres da minha vida e percebi que elas só usavam maquiagem em ocasiões especiais. No dia a dia, era gente que tomava banho, penteava os cabelos e ia à luta. Que eu notasse, veja bem. Pode ser que rolasse um rímel e um lápis ao redor dos olhos. Certamente um batonzinho. Mas não era nada elaborado, nada que mudasse a aparência, nada que transformasse minha percepção sobre elas. Eram bonitas do jeito delas - algumas mais, outras menos - e me parece haver um mérito discreto nisso. Coisa de hippie, talvez, mas que faz sentido para mim.

Também me ocorre, ao refletir sobre maquiagem, que ela pode ser mais profunda e mais grave que um simples jogo de sombras ao redor dos olhos. Pode envolver o comportamento de homens e mulheres.

Além de retocar o rosto, podemos ser tentados a maquiar nossas ideias e comportamentos - para agradar quem está ao lado, ou para nos enganar. Existe por aí uma ideia vaga e besta do que deveria ser a mulher ou o homem ideal, e as pessoas comuns – nós – são tentadas a se disfarçar nessa criatura perfeita. Tentamos adequar o nosso comportamento para nos aproximar daquilo que um “verdadeiro homem” ou uma “mulher de verdade” deveria ser. Em vez de tentar entender quem realmente somos e o que nos faz feliz, em vez de tentar expressar nossa verdadeira identidade, gastamos tempo precioso e energia tentando nos tornar parecidos com algo que não somos e que provavelmente nem existe. Um personagem superficial do cinema ou da TV, na maioria dos casos. Essa é uma forma de maquiagem mais séria e mais daninha que algumas pinceladas de blush nas bochechas. Envolve a personalidade. Envolve disfarçar – e até perder - aquilo que nos torna especiais.

Isso é importante: muitos relacionamentos naufragam porque as pessoas não sabem quem são. No meio da multidão, no auge da festa, bebum ou chapada, é fácil viver um personagem qualquer. Mas na intimidade isso não existe. Ou você tem alguma ideia sobre quem você é, ou está em contato com os seus sentimentos de verdade, ou nada vai funcionar. Muito menos o sexo. Não há maquiagem que nos esconda de nós mesmos quando estamos a sós com os outros.

A maquiagem do rosto e da alma, embora diferentes, expressam a mesma tendência. Uniformização. Existe uma força ao nosso redor pressionando as pessoas para ficarem iguais. Olhe em volta: não é apenas a tatuagem e os cabelos. Não são apenas os corpos que vão se tornando indiferenciáveis. É o comportamento, são os hábitos, os gostos. Até valores. Temos a impressão de expressar nossa individualidade nas redes sociais, mas ao fazer isso apenas agimos como todos os demais. Como bilhões de outros.

Se a maquiagem torna as mulheres parecidas umas com as outras, a imitação de comportamentos em série cria padrões em escala planetária. Em 10 anos, se continuarmos na mesma onda, as pessoas terão as mesmas caras em dirão as mesmas coisas no mundo inteiro. Eu sou contra. Prefiro a minha mulher de cara lavada. Prefiro as minhas ideias e as ideias verdadeiras e originais de quem convive comigo. Somos diferentes, afinal. Temos cores, peles, olhos e formatos diferentes. Sentimos de maneira única, reagimos de maneira peculiar, temos cada um a sua própria história. Por que não cultivar as diferenças que nos fazem humanos em vez de inventar semelhanças que nos desumanizam? Fica a pergunta, sem maquiagem.

Ivan Martins
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