domingo, abril 22, 2012

O "Homem-Cachaça" e o "Amante-Vinho"


Ele tinha um Chevette 74. Equipado apenas com... sua imaginação.

“Liga o rádio”. Ela pediu.

“Rádio, pra quê? Eu quero o silêncio. Pra te ouvir melhor”.

Em um minuto, ela se sentiu a própria Chapeuzinho. Na hora de descer do carro, nada de engenhocas que apitavam e travavam as portas. Ele descia e dava aquela adorável corridinha para abrir a maçaneta antes mesmo que a moça contasse até cinco. Ai, ai...

Um outro integrante da mesma tribo dos sedutores encontrou a antiga colega da faculdade. Dez anos se passaram.

“Você casou?”

“Não...”, ela disse.

“Teve filhos?”.

“Também não, tá doido?”

“Que espécie de idiotas você encontrou no caminho? Eu te faria logo duas: Helena e Gisela”.

“Que absurdo, abusado!”

Mas, por dentro (porque só sendo mulher para saber o oceano que guardamos por dentro), ela der-re-teu. Existe uma diferença entre o homem cachaça e o amante vinho. Um quer te embebedar para te tornar uma presa mais simples. Ele te enfraquece. O outro vai enchendo seu copo aos poucos e te embriagando da presença dele. É inebriante.

Um é comédia adolescente. O outro, filme francês. Um só enxerga o “durante”. O outro curte antes, na hora e depois. Um é escravo do livro dos recordes, ama para fazer ranking, para mostrar pro outro, é escravo da moda. O homem inteligente sabe que uma parceira interessante é uma sinfonia que nunca termina. Já entendeu uma das mais lindas lições da filosofia: você pode se banhar várias vezes no mesmo rio. Nunca será a mesma experiência. Você mudou, o rio mudou. Uma mulher é um sofisticado instrumento de corda. Para desvendar aos poucos. E durante anos. Todo dia, uma sessão nova. Não é segurar o tchan e ir embora.

Nós, mulheres, precisamos dos degustadores. Mas muitas vezes nos submetemos aos predadores.

Se é seu dia de deusa da caça, de Diana, quem vai te questionar? Mas me dói ver amigas lindas e inteligentes me ligando ou escrevendo para tentar entender por que o último peguete caçador não ligou no dia seguinte? Simples, minha amiga. É como a fábula do escorpião, que pica o sapo no meio do lago. Mesmo sabendo que ambos vão morrer. É a minha natureza, diz.

Melhor vedar a porta para caronas perigosas.


EXTRA - Clarissa Monteagudo
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...